Foto: Arquivo Pessoal
Sérgio seguiu à risca os conselhos do pai, que sempre lhe falou da importância dos estudos
A história de vida de Sérgio Fagundes até parece coisa de novela, mas é muito real. Quando criança, Sérgio foi catador de papel e hoje, aos 39 anos e formado em Engenharia Elétrica, está montando sua própria empresa.
Para isso, Sérgio viajou recentemente para a Alemanha, onde visitou a maior feira de eletromecânica do mundo e foi à Holanda e Bélgica conhecer empresas que atuam com sistemas de energia renovável.
E não é só isso. O engenheiro eletricista ainda faz projetos de componentes para geradores de energia elétrica e gerencia a manutenção dos sistemas elétricos desses geradores em mais de 60 municípios.
Catando papel
Filho mais velho de um casal muito humilde, Sérgio veio com os pais e irmãos de Sertaneja para Londrina com seis anos de idade, após a geada negra da década de 1970 que arruinou muitas plantações no Paraná.
Aqui, o pai de Sérgio conseguiu emprego na Cacique, mas o dinheiro era muito curto para o sustento da família. “Passávamos dificuldades e muitas vezes não havia o feijão com arroz para comer”, relembra.
Foi aí que Sérgio e o irmão Sílvio resolveram catar papel pelas ruas de Londrina para ajudar no sustento da família. Todos os dias às 7h30 pegavam o ônibus para trabalhar e no período da tarde frequentavam a escola.
“Meus pais sempre quiseram que eu estudasse e meu pai me dizia que se eu não estudasse, eu seria como ele e ficaria nessa mesma vida que a gente levava. Por isso eu sempre achei importante ter uma profissão, porque meu pai não tinha”.
A rotina durou cerca de três anos, até que os pais de Sérgio conseguiram emprego como caseiros de uma chácara e toda a família voltou a trabalhar na roça. O cultivo do solo foi o trabalho de Sérgio até os 18 anos, quando conquistou seu primeiro emprego com carteira assinada.
Profissão
Muito novo, aos 11 anos, Sérgio decidiu qual seria sua profissão. “Eu percebi que o meu vizinho tinha moto, comprava roupas e sapatos para os filhos e eu quis saber a diferença entre a minha família e a dele, afinal como vizinhos podiam ter condições tão diferentes? Então perguntei ao filho dele o que ele fazia e soube que ele era eletricista”.
Sérgio resolveu que para dar uma vida melhor a sua família e para que seus futuros filhos não passassem pelas mesmas dificuldades que ele passou quando criança, ele seria eletricista.
Fez cursos na área e durante o segundo grau estudou eletrotécnica. Conseguiu seu primeiro emprego na área e trabalhou 20 anos na mesma empresa, a Nishi Eletromecânica: entrou como eletricista aos 18 e saiu como gestor de projetos aos 38.
Ao todo foram mais de 60 cursos nessa área e por quatro anos foi professor de cursos profissionalizantes no Senai, formando centenas de jovens.
E foi durante uma viagem pela Nishi, para gerenciar uma obra no Rio Grande do Sul, que o eletricista percebeu que podia mais. “Lá eu tinha reuniões com engenheiros eletricistas e quando voltei para Londrina decidi que também seria engenheiro. Então fui fazer faculdade e me formei em 2006”.
Alguns anos depois, o engenheiro saiu da Nishi e montou uma empresa em sociedade com ela. A sociedade não deu certo e agora Sérgio está montando outra empresa para atuar com sua especialidade que são geradores de energia elétrica.
Futuro
Embora não haja como negar que essa é uma história de superação, Sérgio acredita que ainda está no meio de sua jornada e os planos futuros são muitos. Atualmente o engenheiro está cursando pós-graduação e MBA em gestão de projetos e pretende consolidar sua empresa como uma empresa sustentável.
Outro sonho de Sérgio, que cria sozinho os filhos Franciele e Serginho, é vê-los formados. Serginho, 12 anos, ainda cursa o ensino fundamental e Franciele, 20, já está concretizando o sonho do pai e faz faculdade de Direito.
Reconhecimento
A vida de Sérgio com certeza daria um livro e já foi tema de reportagens. Em 1983 o menino catador de papel foi entrevistado pelo Globo Repórter para uma matéria sobre catadores.
Até recentemente Sérgio não havia visto a reportagem. “Lembrei dessa reportagem porque não tinha fotos de criança para a minha formatura. Escrevi para a Globo e a emissora se interessou pela minha história. Sugeriram uma nova reportagem, que foi ao ar no último Globo Repórter de 2009, e me mandaram a fita”.
E o reconhecimento não parou por aí. No começo desse mês, o engenheiro recebeu na Câmara Municipal o Diploma de Reconhecimento Público pelos relevantes serviços prestados à coletividade.
Texto: Máxima Comunicação/Marina Ferezim
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