Foto: Studio Milton Dória
No conhecido Murinho da Vergonha, uma parcela significativa dos londrinenses de antigamente se encontrava para colocar o papo em dia
Quem passa à noite por ali hoje nem imagina que aquele espaço deserto e silencioso, onde não se vê vivalma, exceto um ou outro passante, já foi um dos lugares mais animados de Londrina, principalmente nos finais de semana, quando o local entupia de gente.
Aí chegou o Calçadão e, junto com os carros, da noite pro dia, também desapareceu do cenário central da cidade aquele que, durante muitos anos, a um só tempo, simbolizou a camaradagem e a sacanagem do londrinense: o Murinho da Vergonha.
Espaço democrático e, por isso mesmo, povoado de gente vinda de todo canto da cidade, era no Murinho que uma parcela significativa dos londrinenses de antigamente se encontrava para colocar o papo em dia, conversar fiado, falar de política e futebol e, claro, mexer com as “moças de família” que se aventuravam a passar por ali, e não eram poucas, algumas até faziam questão umas pra rebolar mais ainda e outras pra devolver na lata a gracinha recebida.
Em busca de festas
Também era do Murinho, depois de tomar umas e outras na padaria União ou no bar do Norte, próximos dali, que muita gente saía pra noite em busca de alguma festa, uma brincadeira dançante no Grêmio, no Canadá ou na casa de alguém o que era comum na época ou ainda dar uma esticada na zona da Vila Matos, ou tudo isso junto dependendo do movimento e da bebedeira.
Para os mais novos, esse folclórico e quase esquecido espaço de confraternização social que, em vez de separar, como fazem os muros, unia e fortalecia nossos laços comunitários, ficava na avenida Paraná, naquela quadra do Calçadão entre as avenidas Rio de Janeiro e São Paulo, margeando a praça Floriano Peixoto. Devido a sua altura estratégica daí o nome Murinho era usado em toda a sua extensão como banco. Pra sentar e prosear.
Todo o espaço do Murinho hoje virou um canteiro de flores. E, se durante o dia, um ou outro ainda senta numa pequena beirada de cimento que sobra dos canteiros, quando a noite chega... Só as milhares de rolinhas empoleiradas sobre as árvores permanecem por ali, bem diferente de antigamente quando fervia de gente à noite para apreciar o footing das garotas e discutir, lance por lance, algum jogo do Campeonato Paulista ou do Campeonato Amador da cidade já que os “boleiros” formavam um dos principais grupos do Murinho.
Sem essa de política
A turma do Murinho não era muito chegada em política não. Certa feita, em março ou abril de 1968, uma passeata noturna de estudantes universitários, em protesto contra a morte do estudante Edson Luis, no Rio de Janeiro, passou pela avenida Paraná na hora mais animada do Murinho. “O que que é isso aí?”, perguntou um desavisado e, enquanto os estudantes caminhavam em absoluto silêncio, alguém lhe respondeu: “Parece que é o enterro do juiz de futebol que roubou do Londrina hoje contra o Curitiba lá no VGD.”
Para o Murinho convergia gente de todas as idades e profissões, gente do centro e das vilas, pobre ou rico, num tempo em que alguns dos nossos milionários, como o irreverente boêmio Mario Fuganti, ainda se misturavam no meio do povo uma relação há muito perdida, substituída pela indiferença que se instalou entre nós, moradores de uma mesma cidade que não mais se entendem, parecendo separados por um muro invisível esse sim, uma vergonha.
O Murinho da Vergonha daí o porquê do nome era também o local das cantadas e gracinhas dirigidas às moças que por ali passavam. Frases do tipo: “Essa aí o pai fez e jogou a forma fora...!”, era das mais inocentes que se ouvia, embora a resposta nem tanto: “Jogou não, seu bobo, leva sua mãe lá em casa que ele faz outra igualzinha!
Texto: Máxima Comunicação/Apolo Theodoro
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